Entre Ciência, Memória e Identidade:
O Museu Odontológico dos Campos Gerais.
Samara Hevelize de Lima1
2026

Os museus odontológicos brasileiros desempenham um papel cultural e
científico fundamental ao preservar a memória da saúde bucal, da formação
profissional e do desenvolvimento das práticas odontológicas no país. Esses
espaços não se limitam à guarda de instrumentos e documentos antigos, mas
atuam como centros de reflexão sobre a história da ciência, da educação e das
políticas de saúde, contribuindo para a valorização do patrimônio cultural ligado
às profissões da área da saúde. Ao registrar a evolução técnica, ética e social da
odontologia, os museus odontológicos ajudam a compreender as
transformações da sociedade brasileira, seus modos de cuidar do corpo e as
relações entre ciência, trabalho e comunidade.
No Brasil, onde a odontologia possui trajetória marcada por desigualdades
regionais, processos de regulamentação tardios e avanços científicos
significativos ao longo do século XX, os museus odontológicos assumem
importância ainda maior. Eles preservam acervos raros, muitas vezes
ameaçados pelo avanço tecnológico, promovendo a educação patrimonial
aproximar estudantes, profissionais e o público em geral da história da profissão.
Dessa forma, esses museus desmitificam a ideia da dor e do medo, normalmente
associada a essa prática, fortalecendo a identidade profissional e ampliando o
reconhecimento social da odontologia como parte integrante do patrimônio
cultural brasileiro.
Nesse viés, o Museu Odontológico dos Campos Gerais Dr. Júlio
Federman destaca-se como uma referência regional no interior do Paraná.
Vinculado ao Departamento Pró-Memória da Associação Brasileira de
Odontologia – Regional de Ponta Grossa (ABOPG), o museu cumpre um papel
essencial ao conservar, pesquisar e difundir a história da odontologia,
conectando passado, presente e futuro da prática em saúde bucal.
A atuação do Museu Odontológico ultrapassa o campo técnico,
contribuindo diretamente para a construção da identidade histórica local e para
o fortalecimento da memória coletiva do município. Sua criação, iniciada em
1991 e formalizada em 1997, reflete um esforço coletivo de valorização da
história profissional e de reconhecimento da contribuição dos cirurgiões
dentistas para a saúde pública regional.
O acervo do museu reúne instrumentos, equipamentos, documentos e
obras bibliográficas que narram a evolução da odontologia desde o século XIX,
incluindo peças emblemáticas como a chave de Garangeot, cadeiras
odontológicas de campanha e o primeiro aparelho de radiografia dentária
instalado em Ponta Grossa. Esses objetos não apenas documentam avanços
técnicos, mas também revelam práticas, saberes e condições de trabalho que
marcaram diferentes períodos históricos da região.
Além da preservação material, o museu valoriza a dimensão humana da
odontologia ao registrar a trajetória de profissionais pioneiros, barbeiros e
práticos que atuaram antes da regulamentação da profissão. Essa abordagem
amplia a compreensão da história regional, evidenciando a transição da
odontologia empírica para uma prática científica e institucionalizada. Por meio
de suas exposições e do apoio às pesquisas, Museu Odontológico dos Campos
Gerais reafirma sua importância cultural ao contribuir para a construção da
identidade regional, para a democratização do acesso ao conhecimento histórico
e para a preservação da memória coletiva, consolidando-se como um patrimônio
cultural de Ponta Grossa e dos Campos Gerais.

 

1Museóloga COREM 0167-I 5R PR/SC. Historiadora 0000088/PR.
Doutoranda em Sociomuseologia pela Universidade Lusófona (Lisboa, Portugal), no âmbito da
Cátedra UNESCO Educação, Cidadania e Diversidade Cultural.
ID Lattes: 6185816900579223/ Ciência ID: 8212-47F5-B456/ ORCID iD0000-0002-7974-4672
E-mail: samaralima.museologia@gmail.com